sábado, fevereiro 03, 2007

Partida da oposição

Por Élcio Batista, Sociólogo

Os últimos acontecimentos da política cearense - principalmente a adesão do PSDB ao governo - levantaram a questão da "ausência de oposição" à gestão do governador Cid Gomes (PSB). Duas questões - uma genérica e a outra específica - podem ser levantadas. O que este fato representa do ponto de vista do sistema político democrático? Qual o significado desta "ausência de oposição" na política cearense?

A primeira questão nos coloca a reflexão sobre a necessidade do dissenso e do conflito livres para o bom funcionamento das democracias. Nesse sentido, mesmo que não exista uma oposição organizada, é salutar que a liberdade para divergir e os conflitos de opiniões ocorram e sejam garantidos. O problema é quem assume esse lugar no campo político quando inexistem partidos de oposição. Duas possibilidades se apresentam: 1) os movimentos sociais, populares e os sindicatos; 2) a imprensa.

Os movimentos sociais e populares e os sindicatos foram "incorporados" ao sistema político. Os partidos que se organizaram em torno de um discurso de esquerda foram os principais responsáveis por esta incorporação. Como esses partidos estão hoje no poder, sindicatos e movimentos populares não terão condições, teóricas ou objetivas, para se contrapor ao governo, dada a sua identificação e presença dentro da estrutura administrativa e partidária.

A imprensa - isso é possível - pode fazer a crítica e exercer um papel de oposição a decisões programáticas. Entrementes, os meios de comunicação de massa não têm condições para fazer oposição sistemática aos governos sem vozes que se manifestem dentro do campo político. Caso não existam partidos que se apresentem com propostas e posicionamentos de oposição, a capacidade que os meios possuem para influenciar o sistema político fica comprometida

No que diz respeito à segunda questão, a existência de um governo sem oposição na política cearense já havia se delineado mesmo antes das eleições. A ruptura do senador Tasso Jereissati (PSDB) com o governador Lúcio Alcântara (PSDB), pode ser interpretada como declaração de apoio a Cid Gomes.

Aliado a este fato, a candidatura Cid Gomes (PSB-PT-PCdoB-PMDB-PRB-PP-PHS-PMN-PV) reuniu praticamente todos os partidos que compunham o centro e a chamada esquerda, oposição no Ceará nos últimos 20 anos, exceções do PSol e PDT. O apoio de Luiziane Lins garantiu a presença do PT e de parte significativa dos movimentos populares capitaneados pela criação dos retóricos e publicitários conselhos populares e orçamento participativo.

Portanto, a questão pragmática da luta pelo poder pesou sobre qualquer maior divergência ideológica ou programática. Isso ficou ainda mais claro com a composição dos secretários de Estado, que atendeu rigorosamente a composição política das forças que apoiaram a candidatura de Cid. O jogo político não permite vácuo. O deputado Heitor Férrer (PDT) - não o partido -, provavelmente, ocupará esse espaço deixado pelos partidos. Ganhará projeção e espaço na mídia para se candidatar na próxima sucessão municipal. Mais, nada.

Fonte: www.opovo.com.br

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