quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ford não consegue atender demanda

SÃO PAULO - A Ford, quarta maior vendedora de automóveis do país, não está preparada para o aumento de demanda no mercado interno e terá dificuldades também para atender as encomendas dos países que mais importam seus produtos, como a Argentina.

A capacidade de produção da linha Fiesta, carro-chefe da marca, se esgotou muito antes da última onda de crescimento do mercado brasileiro, que fechará o ano com avanço de vendas de 11,6%. A indústria se prepara agora para um crescimento adicional de 7,7% em 2007.

A fábrica de Camaçari, na Bahia, onde funciona a linha de montagem do Fiesta, está toda tomada nos três turnos. Sem poder acelerar muito mais o ritmo de produção do Fiesta, a empresa adotou uma estratégia criativa logo que notou o crescimento do mercado além do previsto pela indústria, no início do segundo semestre. Resolveu baixar o preço do Ka, carro feito em São Bernardo do Campo (SP), em uma fábrica que opera com ociosidade.

O novo preço do automóvel, que agora custa menos de R$ 21 mil, foi reduzido em R$ 2 mil, o suficiente para deslocar o Ka na versão mais simples para a faixa de carros mais baratos do país, ao lado do Uno, da Fiat.

A manobra serviu para revigorar o desempenho de um automóvel que em 2007 completará 10 anos no mercado brasileiro. As vendas do Ka dobraram, segundo o diretor de vendas e marketing da Ford, Jorge Chear.

Diante do crescimento dos volumes de produção do modelo - de 13 mil unidades em 2005 para 18 mil em 2006 ("uma surpresa", segundo Chear) e a expectativa de chegar a 20 mil em 2007 -, a montadora tratou de cancelar uma programação de folgas e férias em São Bernardo do Campo, que somariam 50 dias ao longo de 2007.

O resultado da estratégia pode ter surpreendido os executivos da Ford. Mas é insuficiente para a empresa tirar proveito do crescimento de demanda. Chear lembra que os principais mercados de exportação da linha Fiesta, como Argentina, também estão crescendo. Mesmo depois de feitas as contas das perdas de vendas ao exterior por conta da desvantagem cambial, será difícil atender à elevação de demanda dos importadores.

A ampliação dos mercados interno e externo chega em um momento em que a Ford se preparava para dar uma guinada na sua participação de mercado. No Brasil, com fatia de 11,6% hoje, a montadora não consegue reduzir a diferença de mais de 10 pontos percentuais que há mais de uma década a separam do terceiro lugar.

Mas a chance de virar esse quadro só poderá acontecer em 2008, quando a empresa lançará um novo carro compacto. Fica o desalento de ter de passar um ano inteiro acompanhando a concorrência crescendo. "Vamos ter que conviver com esse problema em 2007", destaca Chear.

O projeto do novo carro, que passa ainda por fase de criação, busca justamente um modelo que tenha a capacidade de ocupar um espaço de mercado que o Ka não conseguiu conquistar.

Pequeno demais para o perfil da média dos brasileiros que precisam de um carro para carregar a família, o pequeno Ka deixou a Ford fora do segmento que as montadoras chamam de "carro de entrada" - uma parte do mercado em que Gol, Celta e Palio têm primazia. Por ironia do destino, o Ka ganha um impulso para cumprir seu papel.

Fonte: Valor Econômico
19/12/2006

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