quarta-feira, outubro 18, 2006

Numerologia mistificadora

Por Claudio Weber Abramo*


Uma das pragas que afeta a imprensa de modo geral é sua tendência de reproduzir acriticamente aquilo que lhe é apresentado. Quanto mais “respeitável” é a fonte, e quanto mais recônditas são as informações prestadas, mais provável é que seus press-releases sejam copiados sem mais essa nem aquela.


O problema não afeta apenas publicações de países secundários como o Brasil. Ícones da excelência jornalística global também caem na esparrela com freqüência.


Quando a divulgação envolve números, então, é certo que jornais e revistas reproduzirão seja lá o que lhes for apresentado, pois jornalistas não são exatamente conhecidos por sua proficiência nessa área. Coloque-se um número na frente de um repórter e a probabilidade maior é que ele o repetirá sem ter idéia nenhuma do que se trata.


Um exemplo recente aconteceu com a divulgação, pela Transparency International, de um Índice de Países Corruptores. O indicador lista 30 países exportadores, organizados conforme a maior ou menor propensão de suas empresas recorrerem à propinagem para realizar negócios internacionais. Tal propensão teria sido medida objetivamente através da experiência descrita por importadores oriundos de 125 países. Não se trataria de sacações injustificadas, mas de experiência concreta.


A lista tem na cabeça a Suíça, vista como a menos corruptora, e no pé a Índia. O Brasil está lá, na 23ª posição, entre a África do Sul e a Arábia Saudita.


Os responsáveis pela organização Transparency International usaram o posicionamento de países nesse ranking para malhar governos. Sobre o governo brasileiro, foi afirmado que não estaria obedecendo à Convenção da OCDE que trata de propinagem no comércio exterior (de que o Brasil é signatário), porque não coíbe o pagamento de propinas por empresas exportadoras brasileiras.


Eis alguns exemplos de como tudo isso foi noticiado no Brasil: “Exportadores brasileiros estão entre os mais corruptos” (A Gazeta do ES); “Brasil tem má nota em lista de propina” (O Estado de S. Paulo); “Brasil cresce no ranking de corrupção” (Correio do Povo, RS); “Brasil é o oitavo entre os paises mais corruptos do mundo” (Correio da Paraíba) etc.


Nenhum dos redatores ou editores desses e dos demais veículos que entraram na onda se deu ao trabalho de: A) Examinar como o tal índice foi montado (possível de fazer porque o release foi acompanhado de um documento analítico em que a metodologia é explicada); B) Verificar o que é a Convenção da OCDE e determinar se a alegação de descumprimento procede; C) Perguntar para fontes que conhecem essas coisas, como por exemplo representantes do governo, ou do Ministério Público Federal, ou de outras organizações que tratam do assunto.


Como não fizeram tais perguntas, deixaram de informar seus leitores de que:


1) Não há nenhuma garantia de que o ranking de fato reflita experiências, e não opiniões. Os indícios são de que se trata de mera percepção.


2) A amostragem dos respondentes não tem nenhuma relação com as balanças comerciais dos países. Por exemplo, a Alemanha, que responde por nada menos que 7,5% do total de todas as importações mundiais, contribuiu com 51 pessoas na amostra à qual se fizeram as perguntas. O Benin, cujas importações são 0,01% do comércio mundial, teve 147 respondentes. E assim por diante ao longo da lista. Não há nenhuma correlação entre número de respondentes e intensidade de comércio internacional. E as balanças comerciais dos 30 países não foram usadas para ponderar os resultados.


3) A Convenção da OCDE obriga os países signatários a abrirem processos contra empresas sediadas em seus territórios e que tenham sido objeto de denúncia no exterior. Pouquíssimos países do mundo abriram tais processos. Contrariamente ao que a Transaprency International alegou irresponsavelmente, o Brasil foi um dos raros que já fez isso, no caso de empresas que foram acusadas de propinagem no âmbito do programa “Petróleo por Comida”, da ONU, que vigorou no Iraque embargado após a invasão do Kuwait.


Em outras palavras, o tal Índice de Países Corruptores não vale nada e os comentários que propiciou são descabidos, mas tanto a imprensa brasileira quanto a internacional passou adiante o peixe podre que comprou.


(*) Claudio Weber Abramo é jornalista e diretor da ONG Transparência Brasil

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